quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

nuno ramalho / tenho inúmeras coisas a não fazer



Tenho inúmeras coisas a não fazer. Acordei
com a sensação de não haver
o lugar onde possa ausentar-me
definitivamente. Tenho o tamanho todo
de um espaço onde não há nada. À minha espera,
enjaulado, um pássaro qualquer repara
que o procuro parado. Se me levanto, se caminho,
continuo parado em estar onde só eu
estou. Tenho inúmeras coisas a não fazer. As crianças
amparam os meus olhos, lançam ao ar infinitos pássaros
que eu não sei reter. As crianças preparam a manhã
com dúplices lágrimas oscilantes. E é um pássaro que detém
a minha inquietude delicada, um pássaro ou uma criança
quaisquer que amortecem
o fluxo imóvel em que emboco, escravo das inúmeras
coisas que não tenho

a fazer.



nuno ramalho
o rapaz ali sentado
2010
 

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