domingo, 13 de janeiro de 2013

ezra pound / louco é aquele que queria pôr fim à loucura do amor



Louco é aquele que queria pôr fim à loucura do amor
Porque o sol correrá com cavalos negros,
A terra extrairá trigo da cevada,
A corrente fluirá ao encontro da fonte,
E antes que o coração conheça a moderação,
Os peixes nadarão em rios secos.



ezra pound
kevin a. guimet / 113



Serei breve,

Porque o teu cheiro, algures,
ainda conspira, conspira, conspira,
o silêncio do teu corpo sobre as réstias da insónia
que corteja o céu iluminado da sapiência
insurgida da noite
a sibilante resposta da tua presença
e da tua voz ainda recém-nascida,
a comprimir-me, dentro, dentro, dentro,
todas as palavras luminosas.



kevin a. guimet
http://www.blogger.com/profile/08431204893217452682
2012
josé rui teixeira / lembra-te do escuro dos corredores, do olhar



Lembra-te do escuro dos corredores, do olhar
longínquo das viúvas, do silêncio milenar
das múmias ou de outros vestígios arqueológicos.
Lembra-te dos girassóis, de como são efémeras
as rosas de Atacama, de como são transparentes
os corpos na água.

                                   Acredita que o incêndio
do teu ventre não detém o tempo, que a turbulência
do oceano não te prende à vida e que o sorriso
que tantas vezes emprestaste aos dias
não lhes acrescentaram um só minuto.



josé rui teixeira
para morrer
2004
nuno ramalho / roubamos o gato à noite e a mulher que nos traz



Roubamos o gato à noite e a mulher que nos traz
a aguardente,
ele quer a verdade a verdade sanguinária, ele quer
toda a gente amarrada dentro dele - o gato e a mulher, os sinais
da tempestade, qualquer coisa precisa, indomável e
urgente - ele quer adormecer como um crocodilo
encostado à certeza de uma pedra
para sempre.

Aos tropeções pela mortífera noite abaixo
há-de o gato trazer-nos a sua mulher sedenta, o seu cio confuso
e irado, e depois de os roubarmos - ao gato a virgindade, à mulher
a aguardente - chamaremos a verdade
e cortá-la-emos aos bocados. Por entre os incêndios da palavra,
ele buscará sempre algo sério algo frágil
algo intocável que buscar - porque subitamente o medo ou a débil implosão
de um grito, porque subitamente o movimento
imprudente de um crocodilo - e se uma pedra não servir
para que se convença, poderá servir-lhe então
o que roubámos: a aguardente à mulher e a mulher
ao gato, mas apenas porque a noite
desviara o olhar.



nuno ramalho
o rapaz ali sentado
2010
josé adelino maltez / palavra a palavra, disseminado



Palavra a palavra, disseminado
pelas coisas que me circundam,
abstracto, me reparto,
em pedaços me diluo
e, revolto, me procuro.
Partido e repartido,
pelo mundo que me rodeia,
vou e venho, dentro de mim,
como borboleta inquieta
que, sobre si mesma, volteia,
à espera da primavera.



josé adelino maltez
sphera, spera, sperança
2002
vladimir maiakovski / não compreendem nada



Entrei no barbeiro e disse - calmamente:
«Tenha a amabilidade, penteie-me as orelhas».
Num repente o barbeiro pelado virou conífera eriçada,
a sua cara alongou-se como uma pêra.
«Ele é tolo!
Anormal!» -
e as palavras foram-se aos saltos.
O insulto ressaltava de ganido em ganido,
e lon-on-ongamente
uma espécie de cabeça fez troça,
extraída da multidão, como um velho rabanete.



vladimir maiakovski
1913
rabindranath tagore / julgamento



Não julgues...
Habitas num recanto mínimo desta terra.
Os teus olhos chegam
Até onde alcançam muito pouco...
Ao pouco que ouves
Acrescentas a tua própria voz.
Mantém o bem e o mal, o branco e o negro,
Cuidadosamente separados.
Em vão traças uma linha
Para estabelecer um limite.

Se houver uma melodia escondida no teu interior,
Desperta-a quando percorreres o caminho.
Na canção não há argumento,
Nem o apelo do trabalho...
A quem lhe agradar responderá,
A quem lhe agradar não ficará impassível.
Que importa que uns homens sejam bons
E outros não o sejam?
São viajantes do mesmo caminho.
Não julgues,
Ah, o tempo voa
E toda a discussão é inútil.
Olha, as flores florescem à beira do bosque,
Trazendo uma mensagem do céu,
Porque é um amigo da terra;
Com as chuvas de Julho
A erva inunda a terra de verde,
E enche a sua taça até à borda.
Esquecendo a identidade,
Enche o teu coração de simples alegria.
Viajante,
Disperso ao longo do caminho,
O tesouro amontoa-se à medida que caminha.



rabindranath tagore
poemas maravilhosos
nuno ramalho / podes ficar com os meus olhos



Podes ficar com os meus olhos

Podes ficar
com a rigidez dos meus gestos
em embrulhos de névoa

Podes ficar com as minhas mãos
silenciosas pelos caminhos
que tragámos

Com os dedos mirabolantes do meu coração
podes ficar
os que encastrámos no rosto um do outro
nessa noite encadeada
urgente

Podes
resguardar-me num abraço longo
de inverno

Como uma sombra
podes partilhar o chão
do meu corpo imóvel

E podes ficar com a minha mobilidade

Em toda a parte
há um canto meu
com que podes ficar

Se quiseres podes ficar também
com a minha boca
esta que jamais ousou confessar-nos

E podes ficar com os ouvidos
que se escondem da voz
(a voz que me come a voz
com que silencio a tua voz)

Podes encastelar-me o nome
e murmurá-lo entre o voo dos pássaros
que o sossegam

E podes fazer-me brotar na palma da tua mão
ou na lua incandescente que guardas no bolso
para que te possa sempre segredar uma palavra frágil
ao ouvido destemido
quando as noites tenebrosas te esquartejarem os sentidos

O meu corpo é teu
se a tua pele fria sonhar o seu calor
engelhada nos lençóis sangrentos
da memória da cama flácida
inocente

A minha alma
arranca-a com os dedos sibilinos
que a colaram à tua
e se o desejares prega-a ao teu vestido
quando saíres à rua de manhã
para comprar fruta

O meu sangue é o teu sangue
ou até mesmo o sangue que escorrerá nos teus
refúgios enclausurados
se permitires que a coragem
se aninhe a teus pés

Nada tenho
que não seja também totalmente
teu

De certa forma a minha língua
é a tua língua
bem como a minha
vocação
é a tua mão que se confia
ao papel (que não é de
ninguém)



nuno ramalho
amarras
2005
justo jorge padrón / desvaneces-te ao amanhecer



Desvaneces-te ao amanhecer.
Só fica a tua sombra entre as minhas mãos,
uma presença de ar, desejo e sonho e riso
que dissipa o seu incêndio consumido.

Com desespero procuro o teu corpo.
o fugaz testemunho, esse deleite
de toda a tua fragrância derramada,
ainda cativa da minha pele.

Cintilas pela minha medula como um latido unânime,
como uma cega música que habitasse no meu ouvido,
com o seu calor, com a sua vibração de fundo,
com a sua presença invisível no silêncio.

Passo da paixão à demência
perseguindo o teu espectro, a miragem
de uma imagem que ascende pela escala nocturna,
levando-te despida entre os seus braços.



justo jorge padrón
extensão da morte
1998

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

luis alberto de cuenca / a mal casada



Dizes-me que Juan Luis não te compreende,
que só pensa nos seus computadores
e que não faz caso de ti de noite.
Dizes-me que os teus filhos não te ajudam,
que só te dão problemas, que se aborrecem
com tudo e que estás farta de aturá-los.
Dizes-me que os teus pais estão velhos
que se tornaram tacanhos e egoístas
e que já não és a sua menina como dantes.
Dizes-me que já fizeste trinta e cinco
e que não é fácil começar de novo,
que os únicos homens que conheces
são os colegas de Juan na IBM
e não gostas de executivos.
E eu, o que é que eu faço nesta história?
Que queres que eu faça? Que mate alguém?
Que dê um golpe de estado libertário?
Amei-te como um louco. Não o nego
mas isso foi há muito tempo, quando o mundo
era uma reluzente madrugada
que não quiseste compartilhar comigo.
A nostalgia é um passatempo grosseiro.
Volta a ser a que foste. Vai ao ginásio,
pinta-te mais, disfarça as tuas rugas
e veste roupa mais sexy, não sejas tonta,
que talvez Juan Luis te volte a mimar,
e os teus filhos vão para um acampamento
e os teus pais morram.



luis alberto de cuenca
el outro sueno
1987
tiago araújo / sj-02



falo-te da fragilidade do corpo
que culmina na dança
o corpo a redemoinhar ao vento que nasce
no fundo do estômago
arqueando os braços rodando-o sobre um pé.
se pegar em ti posso quebrar-te
os membros
com a força dos meus braços hidráulicos.
(o controlo da força
é a arte da dança.)
esta será sempre a representação mais aproximada
do movimento dos nossos corpos quebradiços
em vertigem num quarto vazio
numa praça nocturna:
o medo de tocar-te nos pontos mais frágeis;
o movimento circular em volta das praças
em busca dos pontos.
porque o teu corpo só se ergue inteiro
quando te despedaças contra os meus braços
abertos.



tiago araújo
fórmulas
nuno ramalho / consagração



Existir. Nada merece ser menosprezado. Sofrer aprofunda, toca absolutamente absolutamente. Ressurgir outro de emoção em emoção, de sensação em sensação, pular de mim para mim, desconhecer-me, reabastecer. O instante alberga a mão que cria, que sobre o infinito aqui desenha o infinito, o emaranhado certeiro e convicto de todas as possibilidades. Ir. Até onde. Não poder é só poder tudo o que para além. O que dói ensina, sustenta. Doer-me abre-me os olhos de eu estar a ver-me, alimenta. Tudo é menos, tudo se anseia, tudo contém o mais onde em si próprio se não chega. Querer é possibilitar circunstâncias. Estar aqui nunca é estar aqui. Estar aqui é estar um lugar antes de onde se quer estar. O instante comprime-se com imparável força contra o instante que o segue. A eternidade é claustrofóbica. Sangue, água, sémen. Medida, sémen, sangue. Sangue, incêndio, boca. Luz, silêncio, sangue. Luz, medo, sangue, sémen, medida, boca. A minha casa é saltar, nunca poder conter-me. Amo-me.



nuno ramalho
dispersos
2010

 
hans magnus enzensberger / discurso de noivado após o jantar



Este eu, um recipiente, que
desde que ninguém o abra,
parece compacto, liso
como um ovo Kinder,
quase apetitoso. Somente lá,
no interior, está escuro. Quem sabe
o que estará dentro, à tua espera.
Obsessões, sem dúvida,
hábitos enferrujados,
medos incompreensíveis,
truques em segunda mão,
desejos infantis.
Que tu a desejes ter,
a esta prenda embrulhada,
roça o milagre.



hans magnus enzensberger
nuno ramalho / tenho fome e não me levanto para ir comer



Tenho fome e não me levanto para ir comer. São dez os passos que me separam de onde estou sentado da cozinha. Dez passos é o que custa à minha fome para alcançar o que pretende. Mas eu não sou a minha fome, e por isso não me levanto. É que quase durmo sobre este desejo cuja realização está já aqui, e comer e saciá-lo despertaria novamente a minha boca para o que jamais poderei trincar.
 
 
 
nuno ramalho
dispersos
2010
boris pasternak / insónia



Que horas são? É escuro. Quase as três.
Parece que não torno a fechar os olhos.
O pastor da aldeia faz estalar o chicote à alvorada.
O vento frio soprará na janela
que dá para o pátio.
E estou só.
Não é verdade. Com
toda a onda penetrante do teu
ser puro, tu estás comigo.



boris pasternak
hagar peeters / encontro



Ele não apareceu.
Talvez tenha adoecido ou ficado debaixo de
um eléctrico. Talvez outra pessoa se pusesse na conversa com ele.
Talvez se tenha esquecido do relógio,
ou o relógio se tenha esquecido de lhe dar o tempo certo.
Talvez o carro não pegasse,
ou tenha ficado avariado a meio do caminho.
Talvez alguém lhe telefonasse quando ia a sair de casa,
dizendo-lhe que tinha de ir a um funeral
ou que a mãe dele tinha morrido.
Talvez tenha encontrado um antigo conhecido.
Talvez tenha tido uma discussão no emprego,
tenha sido despedido e esteja a esconder
a cabeça debaixo de uma almofada.
Talvez a ponte estivesse fechada e
a seguinte também.
Talvez o semáforo permanecesse vermelho.
Talvez o multibanco tenha engolido o cartão
ou a meio do caminho tenha reparado que se esquecera
do porta-moedas.
Talvez tenha perdido os óculos,
não conseguisse deixar de ler,
houvesse um programa que ele queria acaber de ver,
não conseguisse dar a volta à fechadura da porta,
não encontrasse as chaves em sítio nenhum e
o cão dele de repente começasse a vomitar.
Talvez não houvesse um telefone por perto,
não encontrasse o restaurante
ou esteja à espera noutro sítio, por engano.
Talvez - a última possibilidade,
incompreensível e inesperada -
ele tenha deixado de me amar.



hagar peeters
por hoje, chega de poesia sobre o amor
1999
nuno ramalho / não não me



não não me
adivinhes nas costas o peso das estações
unânimes, o delírio das estratégias remendadas
à sombra das paixões que jamais cederam
à pressão das fendas dos lábios, às laranjas
verdes derramadas na garganta. Não

não me digas as palavras
mais tristes, como coração, mão
ou beijo.



nuno ramalho
terra da terra
2005
daniel maia-pinto rodrigues / é do princípio das tardes



É do princípio das tardes
do sol das tardes
das janelas abertas
das cigarras
e é do sol a entrar pelas janelas
da sua incidência nas cristaleiras
nas maçãs e nos jarrões,
é das iluminadas peças de bronze
do segundo plano das aguarelas
das mais à sombra fotografias da família
que eu saio
durante as horas paradas
para escrever poesia



daniel maia-pinto rodrigues
o valete do sétimo naipe
1994
nuno ramalho / tenho inúmeras coisas a não fazer



Tenho inúmeras coisas a não fazer. Acordei
com a sensação de não haver
o lugar onde possa ausentar-me
definitivamente. Tenho o tamanho todo
de um espaço onde não há nada. À minha espera,
enjaulado, um pássaro qualquer repara
que o procuro parado. Se me levanto, se caminho,
continuo parado em estar onde só eu
estou. Tenho inúmeras coisas a não fazer. As crianças
amparam os meus olhos, lançam ao ar infinitos pássaros
que eu não sei reter. As crianças preparam a manhã
com dúplices lágrimas oscilantes. E é um pássaro que detém
a minha inquietude delicada, um pássaro ou uma criança
quaisquer que amortecem
o fluxo imóvel em que emboco, escravo das inúmeras
coisas que não tenho

a fazer.



nuno ramalho
o rapaz ali sentado
2010