quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

nuno ramalho / consagração



Existir. Nada merece ser menosprezado. Sofrer aprofunda, toca absolutamente absolutamente. Ressurgir outro de emoção em emoção, de sensação em sensação, pular de mim para mim, desconhecer-me, reabastecer. O instante alberga a mão que cria, que sobre o infinito aqui desenha o infinito, o emaranhado certeiro e convicto de todas as possibilidades. Ir. Até onde. Não poder é só poder tudo o que para além. O que dói ensina, sustenta. Doer-me abre-me os olhos de eu estar a ver-me, alimenta. Tudo é menos, tudo se anseia, tudo contém o mais onde em si próprio se não chega. Querer é possibilitar circunstâncias. Estar aqui nunca é estar aqui. Estar aqui é estar um lugar antes de onde se quer estar. O instante comprime-se com imparável força contra o instante que o segue. A eternidade é claustrofóbica. Sangue, água, sémen. Medida, sémen, sangue. Sangue, incêndio, boca. Luz, silêncio, sangue. Luz, medo, sangue, sémen, medida, boca. A minha casa é saltar, nunca poder conter-me. Amo-me.



nuno ramalho
dispersos
2010

 

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